Coleção de Arte
e de Afetos
O que uma coleção particular guarda quando guarda também as relações que a formaram.
A Coleção Josemar Antonio reúne 165 obras de 104 artistas, com produção datada entre 1952 e 2026. É uma coleção formada em Salvador, e é da Bahia que ela olha para o Brasil.
Coleções particulares costumam ser lidas por seus nomes mais altos. Esta pede outra leitura. O que a organiza não é uma linha de mercado nem um recorte de escola, mas um modo de conviver: obras que chegaram por encontro, por troca, por presente. O nome que o colecionador deu ao conjunto — Coleção de Arte e de Afetos — não é um enfeite. É o critério.
Uma coleção sobre papel
De cada dez obras, quase cinco são sobre papel: 81 no total, entre gravuras, desenhos, monotipias, fotografias e impressões. A gravura sozinha responde por 31 obras. É um dado que descreve a coleção melhor do que qualquer declaração de intenção — o papel é o suporte da arte que circula, que se dá de presente, que cabe numa pasta e atravessa o país com o artista.
A escala confirma. A mediana do maior lado das obras é de 33 cm, e 74 das 162 obras medidas não passam de 30 cm. Não é uma coleção de grandes formatos à espera de um galpão. É uma coleção de parede de casa, feita para o convívio diário — o que é, de novo, uma decisão sobre afeto antes de ser uma decisão sobre arte.
A ficha registra a técnica. A coleção registra o vínculo.
Mestres e contemporâneos na mesma parede
O traço mais consistente do conjunto é a recusa da hierarquia entre arte popular e arte contemporânea. Cinco mestres santeiros e ceramistas — Albertino, Antônio Carlos, Maurício, Reis e Toinho, quase todos do Piauí — dividem o acervo com Marina Rheingantz, Lucia Koch, Dora Longo Bahia, Vicente de Mello e Alice Brill. José Adário dos Santos, ferreiro de santo da Ladeira da Conceição da Praia, está aqui pelo mesmo motivo que Carybé e Hansen Bahia: porque a obra interessa.
Essa vizinhança não é um gesto de curadoria feito depois. Ela é o efeito de um percurso — de ateliês visitados, de feiras, de rodas de conversa, de amizades com artistas. A coleção não organiza o Brasil em categorias; ela o registra como quem anda por ele.
Uma geografia que não é só baiana
A Bahia é a base — é o maior grupo de artistas identificados por origem. Mas o mapa se abre com força para o Norte e o Centro-Oeste: Pará, Goiás, Piauí, ao lado do Rio Grande do Sul, de Pernambuco, do Rio de Janeiro e de São Paulo. Para uma coleção formada em Salvador, é um alcance incomum, e ele tem uma explicação simples: o colecionador vai onde a arte está sendo feita.
Uma coleção viva
81 das obras datam de 2020 em diante. Isso não faz da coleção um recorte contemporâneo — a obra mais antiga é de 1952 —, mas indica que ela está em formação agora, acompanhando artistas em atividade, muitos deles no início de carreira. Colecionar, aqui, é também uma forma de sustentar produção.
A procedência documentada de algumas obras diz o resto: uma gravura vinda do Clube de Gravuras do MAM-SP, obras presenteadas por artistas amigos, uma peça que chegou pelas mãos de outro colecionador. Cada linha dessas é uma relação registrada em ficha.